Cresce a presença feminina nas bases administrativas, mas permanece a exclusão nas instâncias decisórias. Ou seja, as mulheres estão presentes, mas ainda não estão à mesa, onde as decisões são tomadas.
Flávia Takafashi encerra, em fevereiro de 2026, seu mandato como diretora da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Sua iminente saída não é apenas o fim de um ciclo, representa, também, um alerta para a agenda de equidade de gênero no setor público, especialmente no segmento aquaviário, que é um dos setores mais técnicos, estratégicos e tradicionalmente dirigidos pelo gênero masculino.
Logo no seu discurso de posse, Takafashi convidou as mulheres a sentarem-se à mesa. E pediu aos homens do setor que sejam gentis conosco e que permitam que sejamos ouvidas quando dermos as nossas opiniões.
Primeira mulher a ocupar uma cadeira na diretoria colegiada da Antaq, Takafashi não assumiu o cargo em razão do gênero, mas sim por seu amplo conhecimento técnico e reconhecida competência, e fez disso sua bandeira de luta pela equidade durante os 5 anos de atuação na diretoria da agência, colocando foco e luz no que precisa ser olhado, cuidado e respeitado.
Com a proximidade da sua saída da diretoria, reacende-se um alerta importante: o lugar das mulheres na formulação de políticas públicas e na regulação estratégica do setor não está garantido. É preciso assegurar continuidade não apenas institucional, mas também de representação qualificada e diversa.
A presença de Takafashi na diretoria da Antaq não foi simbólica: foi essencial e substancial. Sob sua liderança, em parceria com a Wista Brazil, a agência lançou e aprimorou a Pesquisa sobre Equidade de Gênero no Setor Aquaviário, um marco inédito no Brasil. Este será um, entre tantos outros, legados que deixará ao nosso segmento.
A segunda edição da pesquisa, divulgada em 2025, revelou avanços e retrocessos que precisam ser compreendidos com atenção e responsabilidade.
Os números falam por si. A participação de mulheres em cargos de gerência subiu de 22,5% para 25% entre as edições da pesquisa, um crescimento tímido, mas significativo. Por outro lado, a presença feminina em cargos de direção caiu de 16,7% para 15%. Nos conselhos de administração de empresas do setor, a participação é de apenas 16,8%, enquanto nos conselhos de Autoridade Portuária (CAPs), não ultrapassa 8,4%. No quadro da própria Antaq, embora as mulheres representem 26% dos servidores, apenas 2% ocupam posições de diretoria ou superintendência.
Esses dados revelam uma realidade: cresce a presença feminina nas bases administrativas, mas permanece a exclusão nas instâncias decisórias. Ou seja, as mulheres estão presentes, mas ainda não estão à mesa, onde as decisões são tomadas.
Mais do que números e dados, o processo de transformação institucional precisa se concretizar: é necessário que a Antaq siga promovendo e consolidando essa agenda. Não se trata de uma oposição entre gêneros, mas da valorização da pluralidade e da diversidade, com um olhar mais humano e complementar. Embora seja uma decisão de natureza política, o Governo Federal deve adotar uma postura estratégica, e não se guiar por uma concepção distorcida de meritocracia, dissociada da realidade concreta do setor. Há mulheres qualificadas, preparadas e plenamente legitimadas para ocupar posições de liderança.
Insistir na presença feminina não é um capricho ideológico. Mais do que isso, representa a evolução desta geração. O setor aquaviário movimenta bilhões em logística, comércio exterior, incluindo portos e navegação. Ignorar a diversidade na tomada de decisões é desperdiçar inteligência, experiências e visões fundamentais para o futuro sustentável da regulação.
Não faltam mulheres competentes no setor: engenheiras navais, advogadas maritimistas e portuárias, administradoras de terminais e empresas de navegação, pesquisadoras, servidoras públicas e lideranças institucionais. O que falta, por vezes, é vontade política de reconhecê-las como protagonistas e capazes de exercer cargos de liderança.
A Antaq e a Wista fizeram seu papel ao lançar luz sobre os dados. Agora, cabe ao Estado brasileiro e à sociedade civil organizada fazerem o seu: assegurar que a saída de Flávia Takafashi não represente um retrocesso institucional, mas a abertura de um novo ciclo de consolidação da equidade de gênero no setor.
O lugar das mulheres à mesa já foi reivindicado. Agora, é dever das instituições manterem a mesa posta e assegurarem cadeiras ocupadas por mulheres com legitimidade e competência.