Março é tradicionalmente associado à reflexão sobre a presença feminina nos espaços de poder e decisão. No setor marítimo e portuário, essa reflexão carrega um simbolismo ainda mais profundo, afinal, estamos falando de um ambiente historicamente estruturado sob bases predominantemente masculinas, desde as operações portuárias até os altos níveis de gestão e regulação.
O setor portuário brasileiro evoluiu significativamente nas últimas décadas. Modernizamos infraestrutura, aprimoramos marcos regulatórios, fortalecemos práticas de governança e ampliamos nossa inserção no comércio internacional. No entanto, a modernização institucional não se limita a investimentos físicos ou a reformas normativas. Ela também exige atualização cultural.
E é nesse ponto que a discussão sobre liderança feminina deixa de ser simbólica e passa a ser estratégica.
A presença de mulheres em cargos técnicos, executivos e decisórios não representa uma concessão. Representa amadurecimento institucional. Diversidade, hoje, é elemento central de governança corporativa e integra, inclusive, métricas de ESG (Environmental, Social and Governance). A dimensão “S”, social, não pode ser tratada como acessória quando falamos de organizações que operam ativos públicos, infraestrutura crítica e cadeias logísticas globais.
A Agenda 2030 da ONU, ao estabelecer o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 5 (Igualdade de Gênero), não propõe apenas uma diretriz ética. Propõe uma agenda de eficiência, inovação e sustentabilidade organizacional. Ambientes diversos tomam decisões mais qualificadas, gerenciam riscos com maior amplitude de percepção e constroem soluções mais equilibradas.
No setor marítimo-portuário, cuja atividade depende de planejamento de longo prazo, segurança jurídica e previsibilidade regulatória, essa pluralidade de visões é um ativo estratégico.
Entretanto, é preciso reconhecer que a transformação cultural não ocorre de forma automática. Barreiras estruturais persistem, sejam elas históricas, organizacionais ou mesmo inconscientes. A baixa representatividade feminina em determinadas áreas técnicas e operacionais ainda é uma realidade. A ascensão a cargos de liderança, embora crescente, segue em ritmo inferior ao desejável.
É nesse contexto que movimentos como o He For She assumem relevância concreta. Mais do que uma campanha simbólica, trata-se de um chamado à corresponsabilidade. A equidade de gênero não é uma pauta exclusivamente feminina. É uma agenda institucional que demanda o engajamento ativo das lideranças, inclusive, e especialmente, masculinas. Não se trata de abrir espaços por benevolência. Trata-se de reconhecer competências, ampliar perspectivas e fortalecer o próprio setor.
Há um ponto sensível nessa discussão, o desafio de trazer homens para ouvir. Ouvir experiências, trajetórias, desafios e soluções construídas por mulheres que atuam no setor com excelência técnica e profissionalismo. A escuta ativa é uma forma sofisticada de liderança.
Se queremos um setor portuário mais moderno, competitivo e alinhado às melhores práticas globais, precisamos compreender que diversidade não é retórica, é estratégia.
É nesse espírito que surge a terceira edição do “Navegando com Elas”, um espaço destinado a dar visibilidade às lideranças femininas do setor marítimo e portuário. Não se trata de um evento celebratório, mas de um ambiente técnico, profissional e plural, onde experiências concretas são compartilhadas e onde o protagonismo feminino é apresentado sob a ótica da competência.
O objetivo é claro: ampliar repertórios, inspirar trajetórias e fortalecer a governança institucional.
Mas há um convite implícito que merece destaque: é fundamental que o público seja, de fato, misto. A construção de um ambiente profissional mais equilibrado não se faz em espaços isolados. Ela se constrói na convivência, no diálogo e na escuta qualificada.
O setor marítimo sempre compreendeu que navegar exige coordenação, confiança e cooperação. Nenhuma embarcação prospera quando parte de sua tripulação não participa plenamente das decisões estratégicas.
Navegar com elas é reconhecer que o futuro do setor portuário passa pela integração de talentos. É compreender que modernização também significa inclusão qualificada. É admitir que governança eficiente pressupõe diversidade.
Mais do que uma pauta de março, trata-se de uma agenda permanente.
Porque o desenvolvimento do setor marítimo-portuário brasileiro dependerá, cada vez mais, da nossa capacidade de unir competências, ampliar vozes e construir soluções conjuntas.
No dia 25 de março, 3ª Edição do Navegando com Elas, na sede da ACS em Santos, o convite está feito.
Que possamos navegar juntos, com técnica, profissionalismo e visão de futuro.